Palavra aos ministros
A distinção da autoridade em/de Jesus.
Ao lermos nos Evangelhos a biografia de Jesus constatamos
que ao ver Jesus ensinando o povo se admirava, pois percebia que Jesus ensinava
como tendo autoridade: “E maravilharam-se
da sua doutrina, porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os
escribas” (Mc 1:22). O contexto em que Jesus passou ensinar não é um
contexto em que se percebia uma ausência de mestres, pois o próprio povo
comparava Jesus com os escribas: “e não
como os escribas”. Uma das questões relevantes é que o povo não se admirava
do ensino propriamente dito ou do que se ensina, mas da forma como se ensinava:
“porque os ensinava como tendo
autoridade”. Pelo menos aqui, o que se ressalta não é o conteúdo, o povo
não está admirado por causa do conteúdo do ensino, mas da autoridade ao
ensinar.
Jesus era mestre em Jerusalém: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” (Jo
13:13). Mas, como supracitado, existiam outros mestres: “ Jesus respondeu, e disse-lhe: “Tu és
mestre de Israel, e não sabes isto?”” (Jo 3:10). Estes mestres eram homens
autorizados para o ensino; tinham toda a regulamentação judaica como substrato
para tal. Não obstante, é com a doutrina (ensino) de Jesus que o povo se
maravilhava, porque esse ensinava como tendo autoridade. O que revela uma
aparente falta nos demais mestres.
Neste ponto, podemos levantar algumas questões: Se
Jesus e os demais, como mestres, tinham autoridade, conseqüentemente
autorização, para a prática do ensino, o que os distinguia na questão da autoridade
observada pelo povo? Por uma questão
didática, e saliento; estritamente didática, quero fazer uma proposição para
por em evidência a distinção entre “as
autoridades”. Proponho com este
fim a idéia que ambos tinham autoridade legal, isto é: de direito; pois eram mestres, mas não de
fato. Percebemos que os mestres tinham autoridade para ensinar, mas não
ensinavam com autoridade – autoridade de direito e não de fato. Jesus como
mestre tinha autoridade para ensinar e ensinava com autoridade – autoridade de direito
e de fato.
Então no que diz respeito à
distinção mencionada, o que se observa em Jesus é uma autoridade perceptível;
ou seja, de fato, como propus. O que me
leva, na tentativa de deixar a distinção mais evidente, a uma nova proposição:
A autoridade pode ser revelada de duas maneiras – Autoridade Reconhecida, isto é aquela em que se manifesta na pessoa
que é tida como autoridade e a Autoridade
Contida, que reporta a pessoa que tem autoridade. Podemos dizer: Pedro é
uma autoridade entre seu povo – Autoridade
Reconhecida, ou podemos dizer Pedro tem autoridade entre seu Povo – Autoridade Contida. Agora o que nos
resta saber é se elas se excluem mutuamente. Vejamos: É possível observar em
alguém a Autoridade Reconhecida e a
Autoridade Contida? Podemos
dizer que sim. É possível observar em alguém uma Autoridade Reconhecida sem Autoridade Contida? Sim, igualmente.
É possível observar em alguém uma Autoridade
Contida sem uma autoridade Reconhecida? Jugo que não. No entanto, essa ultima proposição
suscita ponderações.
É possível observar em alguém uma
Autoridade Contida sem uma autoridade
Reconhecida? Não,
pois quem é autoridade é autoridade sobre alguém ou sobre alguma coisa, digamos.
A autoridade antes de tudo envolve questões relacionais. O indivíduo só pode estabelecer
uma relação de autoridade, inda que de submissão a mesma, em relação a alguém
ou coisa com quem se relaciona. Então toda Autoridade
Contida é Autoridade Reconhecida?
Sim, em certo nível pelo que parece, mas tão somente para aqueles que a reconhecem.
Não obstante, tal vez seja possível observar uma Autoridade Contida que não
seja reconhecida unanimemente.
Jesus tinha Autoridade Contida; isto é, Autoridade de
fato. A questão que segue é: Qual é o fator determinante da autoridade de fato
ou Contida? O que é imprescindível para a manifestação da mesma? Em outras
palavras, por que alguém deixa de ser uma Autoridade Reconhecida e Contida e
passa a ser apenas uma Autoridade Reconhecida, ou de direito e não de fato,
como no caso dos mestres citados no texto de Marcos? Para o fim que estamos
tratando.
Para argüir sobre este
ponto precisamos dar uma breve olhada na biografia de Jesus e na dos demais
mestres de seu tempo. Desde muito jovem,
no geral, os textos que se referem à vida de Jesus, referem-se nestes termos: “E crescia Jesus em sabedoria, e em
estatura, e em graça para com Deus e os homens” (Lc 2:52); ”E todos os que o
ouviam admiravam a sua inteligência e respostas”. (Lc 2:47); “A Jesus Nazareno,
homem aprovado por Deus”( At. 2:22); “E eis que uma voz dos céus dizia: Este é
o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt. 3:17). Quanto a maioria dos mestres da lei e
fariseus, no entanto se ouvia dizer: “Bem
profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo
honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7:6); “Ai de
vós também, doutores da lei, que carregais os homens com cargas difíceis de
transportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais essas
cargas” (Lc. 11:46); “E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o
exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e
maldade”. (Lc 11:39). Estes e outros textos similares, grosso modo, nos
permitem fazer uma boa distinção de como viviam os mestres e fariseus e como
Jesus vivia. Fazer essa comparação é importante, pois nos permitirá outras
proposições.
Jesus tinha
autoridade de fato, ou contida – de acordo com a proposta deste texto - é o que
nos revela o texto do Evangelho de Marcos: “E maravilharam-se da
sua doutrina, porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas”
(Mc 1:22). Podemos argumentar, a partir na análise que estamos desenvolvendo, que
existia um equilíbrio entre o que Jesus ensinava e a maneira como ele vivia. Coerência,
de outro modo. O que lhes resguardava autoridade quando ensinava. A expressão:
“ensina como tendo autoridade”, parece mensurar propriedade de causa, sobretudo
porque era um ensino que se podia comprovar pela experiência. Indo mais fundo
na análise, penso, todavia, que não era o estilo de vida tão somente, ou
propriamente dito, que atribuía o caráter distintivo da autoridade de Jesus,
mas a aprovação de Deus referente à experiência de vida de Jesus. É o que evoca
o texto: “E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho
amado, em quem me comprazo” (Mt 3:17). Parece-me que é a vida agradável a Deus o fator que
gera a distinção mais significativa em Jesus, pois essa leva a uma experiência sui generis
com o Espírito Santo: “E, sendo Jesus
batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito
de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele (Mt 3.16)”. O que sugere que
quando Jesus ensinava a presença do Espírito Santo era incontestavelmente sobre
ele e com ele: "... quando ele
ensinava, estavam sentados ali fariseus e mestres da lei, procedentes de
todos os povoados da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E o poder do Senhor
estava com ele para curar os doentes” (Lc 5:17; grifo meu). Paulo,
apóstolo, parece fazer também alguma referência neste sentido quando instrui: “Não extingais o Espírito”. (Its. 5:19).
E qual a maneira mais eficaz de se apagar o Espírito, se não vivendo de maneira
dissoluta e ofensiva a Deus.
Assim, concluí-se que no
que se refere a Jesus e aos mestres da lei o caráter preponderantemente diferenciador,
penso, não era nem “o que se ensinava” em si, a priori, nem as maneiras como se
ensinava, mas o respaldo do Espírito Santo. É a presença marcante do Espírito
Santo que outorga a Jesus o fator percebido por seus ouvintes: “... como tendo autoridade” (Mc 1:22). O que para nós seus discípulos
é inspirador se queremos obter êxito em nossos ensinamentos. Precisamos ter em
mente que a fonte primária da autoridade contida não é o estilo de vida do
ministro, mas o Espírito Santo. Mas, como em Jesus, o Espírito Santo, age
poderosamente naqueles em quem a experiência de vida agrada a Deus. Portanto,
necessitamos urgentemente atentar para a recomendação de Paulo, apóstolo, e não
apagar o Espírito Santo. O que nos levará a exemplo de Jesus, nosso mestre, a
um ministério de ensino cheio da graça de Deus, por isso eficaz. “Então, os
discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles,
confirmando-lhes a palavra com os sinais que a acompanhavam” (Mc 16:20).
Por Edson Ciso